sexta-feira, 13 de maio de 2016

Ex-libris Eróticos Vol. III

O Cuzinho Experimental, um selo que é uma orgia entre Cozinha Experimental, Presença e Dodo, lança mais uma publicação excitante. Se lambuzem!


 





quarta-feira, 27 de abril de 2016

Formato Indefinido

Edita, diagrama, escaneia, xeroca, recorta, cola, photoshopa, imprime, dobra, costura, grampeia, embebe de curry, embebe de cana, publica, lança ao espaço, expõe!

A bomba lenta foi armada, está engendrada, seu tic tac visual ecoa para a caixa acústica torácica, ressoa pelo diafragma transborda para a cabeça explode e pipoca!

Explode a barreira, destrói a linha, ultrapassa a fronteira. As feridas estão abertas, os estilhaços despedaçados, por todo o espaço espalhados: alta cultura, baixa cultura, artista, artesão, editor, tudo junto e misturado dão vida ao corpo fragmentado.

FORMATO INDEFINIDO é palavra que foi roubada da fala e para essa exposição se encaixa perfeitamente como título.

É artista que edita livro e editor que se aventura na arte por amor ao perigo.

FORMATO INDEFINIDO nasce como abrigo para rabiscos, no amor compartilhado pela urgência que é o lançamento de um livro, feira de publicações, parede para prego e encontro com os amigos.


quinta-feira, 21 de abril de 2016

sem título


Dia 30 de abril estaremos lançando dentro da exposição Formato Indefinido uma nova publicação, parceria da Cozinha coma DODO Publicações, que é o primeiro fruto executado em nossa nova sede, a Oficina do Prelo.
É um trabalho de Araújo Vasconcelos. Uma reapropriação, um remix, um sample retirado da hq El Sueñenro de Enrique Breccia.




A exposição Formato Indefinido conta com um time de artistas e editores de primeira e terá outros lançamentos! Não perca!


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O Caderno Rosa de Iuri Casaes

É com muito prazer que nosso selo Cuzinho Experimental em parceria com a  DODO Publicações lança a Coleção Caderno Rosa.



Neste fim de semana, na feira Pão de Forma, você poderá adquirir o seu exemplar.
O primeiro artista da coleção é Iuri Casaes. Confira algumas fotos e fique com água na boca.






Feira Pão de Forma

A Cozinha Experimental (e mais um monte de gente boa!) estará presente na Feira Pão de Forma, que acontece no Rio de Janeiro, nos dias 3 e 4 de outubro de 2015. Apareça!


domingo, 16 de agosto de 2015

Editora NOA NOA - um depoimento e um documentário

O Thadeu me escreveu já faz um mês nos presenteando com um post para nosso blog. Enviou este relato do Cleber Teixeira publicado no excelente livro EDITORES ARTESANAIS BRASILEIROS, de Gisela Creni e pediu que fosse publicado junto ao link do filme sobre o Cleber feito por Alexandre Veras, Demétrio Panarotto, Júlia Studart e Manoel Ricardo de Lima. Aí está Thadeu, muito obrigado pela força.




Editora Noa Noa

No final dos anos 1960, fiz uma coisa que era um velho sonho - entrei para o Instituto Nacional do Livro (INL). Lamentavelmente, já no período da ditadura militar, quando as coisas mudaram muito, mas era um projeto que eu tinha há muito tempo porque ali era o celeiro de pessoas ligadas à produção intelectual e à manufatura do livro.

Quando adolescente, eu passava pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, sede do Instituto Nacional do Livro, e via sair o Augusto Meyer, que era na época o diretor do Instituto. Eu ficava encantado, para mim Augusto Meyer era tão importante como é hoje um ídolo da televisão. E 1968, entrei para o Instituto, e felizmente ainda havia muita gente boa trabalhando lá, como Salvador Monteiro. Era muito pouco tempo depois do golpe militar, ainda existiam muitas edições importantes em andamento. Mas já peguei um diretor do Instituto militar, um general da reserva que era também contista, mas era mais do que tudo um general. Trabalhei até 1974, quando as coisas mudaram de fato.

Felizmente, logo fui trabalhar na Bloch como redator. Na Bloch, conheci o Emanuel Araújo e o auxiliei na edição de uma enciclopédia e na Revista Geográfica. Mais tarde, Emanuel Araújo foi contratado para fazer uma enciclopédia do Brasil e me convidou para trabalhar na equipe dele, e então trabalhei lá até 1977.

Antes mesmo de eu entrar para o Instituto, já tinha intenção de montar uma pequena editora. Na verdade, desde criança quis ser escritor e fazedor de livros. Sempre pensei em montar uma pequena gráfica para fazer livros manuais, como o tipógrafo AldusManutius do século XV, e com isso preservar a tipografia. Tinha como modelo as edições do Manuel Segalá e do João Cabral de Melo Neto. Na época, as edições do Manuel Segalá eram mais fáceis de conseguir, já as do João Cabral sempre foram de mais difícil acesso.

Quando comecei, em 1965, eu não tinha impressora, então resolvi fazer um livro totalmente escrito à mão. Foi o primeiro livro da editora: um livro meu – 10 poemas, ilustrado com gravuras minhas em madeira, com uma tiragem de cinquenta exemplares. Esse livro me deu muito trabalho, mas também muita satisfação.

O nome da editora NoaNoa surgiu quando fiz o meu livro manuscrito, que me remeteu de imediato para uma edição do NoaNoa do pintor francês Paul Gauguin. A primeira edição que tive em mãos era uma reprodução fac-similar do manuscrito NoaNoa.

Gosto muito do Gauguin, e isso hoje tem um sabor de ranço acadêmico, porque as pessoas gostam do pintor francês Marcel Duchamp. Gostar de Gauguin já caracteriza alguém como antigo. É evidente que Gauguin e Duchamp são artistas completamente diferentes. Mas o gauguin me transmitiu um prazer tão grande na época, e transmite ainda hoje, que resolvi colocar o nome NoaNoa, que significa “terra perfumada”, e descreve a vida do Gauguin numa ilha de Santa Catarina. Também acho o nome NoaNoa muito sonoro.

O nome da editora NoaNoa sempre vem acompanhado de um selo, reprodução da xilogravura de um velho amigo meu, mas nunca existiu o objetivo de criar uma logomarca Foi um encaminhamento puramente emocional. O fato de trabalhar sozinho dá algumas alegrias porque a gente decide tudo, mas evidentemente eu nunca pretendi achar que acerto sempre.

Logo depois, comprei uma impressora Minerva de pedal e alguns tipos. Comprado esse material, comecei a fazer algumas edições, pois queria começar a trabalhar com tipografia. A tipografia, para mim, é a forma mais nobre dos processos de impressão. Minha intenção sempre foi ter um trabalho fixo, que desse o pão nosso de cada dia, e nas horas vagas (aos sábados e aos domingos) fazer meus livrinhos.

Paralelamente ao esforço de preservar a tipografia, de tentar manter viva esta arte, comecei a buscar pessoas com quem tivesse afinidade intelectual. E como na época, mais até do que hoje, para minha geração de autores em formação, a presença dos irmãos Campos (Augusto e Haroldo) era muito forte, escrevi para o Augusto propondo fazermos juntos alguma coisa. Ele me mandou, supergeneroso, sua tradução dos poemas do francês Stéphane Mallarmé. Mallarmagem foi o primeiro trabalho que fizemos juntos.

Toda noite eu compunha o livro. Era disciplinado, chegava do trabalho e ia compondo um poema por dia. No dia seguinte imprimia. Fizemos o livrinho em papel Fabriano, na época era possível isso, e teve uma boa repercussão por vários motivos. O exótico do processo artesanal, da pequena tiragem, a importância do autor e do tradutor. Os irmãos Campos sempre tiveram muita força na mídia. Toda tradução do Augusto era comentada pelo Haroldo em um suplemento importante, e com isso a editora começou a ficar conhecida. Para a minha geração, a presença dos concretistas era muito forte. Só tendo pertencido àquela geração para saber o que era. A maneira como eles agiam e faziam me interessava menos do que a tradução que eles faziam. Eu tinha o maior respeito por eles.

O que determinou o projeto editorial da editora NoaNoa, ou seja, a escolha dos títulos, foi o meu universo como autor. Sempre decidi o que publicar. Eu acho que os poetas concretos representaram para minha geração um bem e um mal muito grande. Eles exerceram uma influênciamuito forte nos poetas em formação. E eu fiz um projeto que estava perseguindo esses pontos luminosos, que na verdade eles mostraram. A ideia era conviver mais intimamente com essa gente para ver e entender o que eles produziam. Porque na medida em que você trabalha nos processos de composição gráfica, principalmente os manuais, você penetra intimamente na poesia, você está sempre com o conteúdo da composição na cabeça. Ainda mais no processo manual de composição, se comparado ao do computador. Tudo isso fazia parte de um processo de formação, de educação do poeta, e eu estava no ponto. E hoje não me arrependo de nada. O Augusto mesmo disse uma coisa muito significativa, que a poesia concreta é para ele uma corcunda com a qual ele tem que conviver.

Fiz depois outros trabalhos que davam mais liberdade. Editei, por exemplo, uma tradução do José Paulo Paes, uma seleção de poetas gregos contemporâneos. Gosto do poeta mineiro Afonso Ávila, de quem editei O belo e o velho, que foi um fracasso de venda. Outro autor com quem eu gostaria de trabalhar é o Boris Schnaiderman. Só que a tradução de poesia no Brasil virou moeda pequena, todo o mundo está fazendo. A tradução transcriativa dos irmãos Campos também já virou uma terra de ninguém. Estamos hoje quase carentes do om comportamento. Está na hora de ararmos de experimentar e fazer uma coisa sóbria e bem-feita.

Voltando ai início da editora, o segundo projeto foi a reedição do autor e.e. cummings, que o Augusto já tinha editado pelo Ministério da Educação. Reeditamos com mais nove poemas e aí começamos uma série de trabalhos juntos.

A partir de 1977, aumentei a capacidade de trabalho na editora, porque mudei para Florianópolis. Minha mulher trabalhava na Eletrosul e a empresa dela foi transferida para cá. A mudança de uma cidade grande para uma cidadezinha pequena como essa é uma experiência que eu gosto de contar porque a gente costuma fantasiar muito. As pessoas que lidam com literatura, com trabalho intelectual, idealizam a província como um espaço ideal para produção. Tanto a província quanto a cidade grande têm suas coisas boas e más. O difícil é a gente saber trabalhar essas coisas no lugar onde vive, porque esse lugar ideal não existe.

Quando cheguei aqui pensei em manter o mesmo ritmo de trabalho que tinha no rio de Janeiro. Trabalhar como jornalista as oito horas regularmente e, à noite, me dedicar à editora. Essa foi a minha primeira ilusão. Não havia trabalho como jornalista, e quando havia o salário era humilhante. Então era chegada a hora de transformar a editora numa empresa comercial. Virou uma empresa, eu virei empresário sem nenhuma experiência e competência para lidar com o negócio. Tive que enfrentar os problemas, começou uma outra etapa. Editei algumas obras muito interessantes e a editora foi reconhecida.

Com o reconhecimento da editora, naturalmente muitas pessoas me ofereceram originais e traduções. Recebo ainda hoje pessoas de todo o país e até de fora do país. A editora é muito conhecida na Argentina, por causa da temporada de férias dos argentinos aqui na Ilha. Muita gente boa me mandou coisas muito interessantes, mas muito louco apareceu e me deu problemas. Há pessoas ótimas que vêm aqui, porque essa é uma das maravilhas do livro, a capacidade de se multiplicar. A atividade em sai me agrada muitíssima, acho uma experiência muito rica, mas não sei se consigo manter isso. Minha relação com os livreiros chegou ao limite do insuportável.

Durante muito tempo entrei em conflito com a linguagem do trabalho, com o produto final, com a destinação dele e com os canais de comercialização. No início, cheguei a fazer muitas edições em papel importado. Mas sempre me confundi em relação à comercialização desse produto. Que produto é esse, o que ele pretende, e coo chegar lá? Eram perguntas elementares que eu me recusava a fazer porque, ainda com resquício do esquerdismo juvenil, eu queria fazer com que os produtos (ainda que tivesse alguma sofisticação) chegassem a um número maior de leitores. Isso foi uma bobagem sem tamanho, só que ano após ano eu sabia que era bobagem, e não tinha coragem de assumir. Na verdade, o que eu faço, o meu projeto, tem a ver com um produto para bibliófilo.

Quando eu tinha um trabalho que me dava o pão de cada dia, eu podia fazer o trabalho da editoria como um hobby. Mas no momento em que você faz disso um ganha-pão, você tem que olhar de outra maneira. O ideal seria fazer edições para bibliófilos. E com todas as características desse produto, ou seja, com papel importado ou artesanal nacional, com ilustrações originais de bons artistas, livros sem censura, uma tiragem de cem exemplares numerados e assinados pelo autor. Dessa maneira é possível fugir do circuito das livrarias.

A editora tem um projeto gráfico padrão, bastante simples, que eu criei tendo como modelo a pureza dos primeiros tipógrafos. Só há alterações quando trabalho com um autor que tenha uma poesia inovadora – e eu já fiz isso – ao qual eu possa dar alguma contribuição fazendo uma folha de rosto ou uma diagramação especial, enriquecendo e transformando tudo num objeto poético que tenha a ver com o poeta. Mas só pelo meu desejo de me mostrar inovador não; se eu não encontrei uma sintonia, e não há necessidade, o que eu vou fazer é dar o melhor suporta para que aquela poesia surja. Não quero ser coautor o livro, pelo contrário, eu me preocupo em fazer da melhor maneira possível, escolhendo o tipo ideal, a melhor diagramação, o formato do livro e o melhor papel para impressão, e que tudo fique ideal para cada autor. Essa é a maior preocupação que tenho quando pego um texto para fazer um projeto. Quem é esse autor? Qual o universo dele? Como ele gostaria de ter sua obra editada? São as perguntas que faço sempre.

Quando montei a editora, o ponto de referencia eram as primeiras editoras, as primeiras gráficas do inicio da imprensa, quando o editor muitas vezes eram também um tipógrafo. Eu não faço nenhum trabalho sem uma convivência com as pessoas envolvidas no projeto. Todos os autores que edite participaram intimamente de todo o processo de edição. Como o trabalho do ilustrador acontece da mesma maneira: tiramos as provas e escolhemos juntos o desenhos, ou seja, participamos da elaboração e de todas as etapas do trabalho.

Eu acho que existe uma relação íntima com autor do livro, mesmo que ele tenha morrido há quinhentos anos, e eu me esforço para isso. Pela própria lentidão do processo de composição manual, você quase que incorpora o autor para que ele fique satisfeito e não se revire na tumba. E isso é uma coisa que me dá muito prazer. Eu, sendo às vezes espírita, realmente me esforço para que o autor esteja aqui. O autor, vivo ou morto, é que determina o formato do livro. Nunca me preocupo com o melhor aproveitamento do papel. Escolho a gramatura do papel, a cor, o tipo de letra, o formato do livro, imaginando sempre que o leitor, quando pegar o livro, observará que está tudo afinado como um orquestra.

O problema de um pequeno editor, como eu, é que ele encontra dificuldades por todos os caminhos. É preciso encontrar aquele caminho que permita pelo menos resolver parte do problema, que é a sobrevivência do próprio projeto. Você sabe que te um público e quer atende-lo, porque são leitores que te acompanham há tanto tempo. Mas não estou conseguindo mais chegar a essa gente porque os livreiros apresentam obstáculos intransponíveis.

A grande dificuldade, o estrangulamento das pequenas editoras, é como escoar a produção. O diálogo com os livreiros, sendo você tão pequeno e eles podendo viver sem você, é desanimador. Os livreiros, com raríssimas exceções, são comerciantes sem nenhuma formação específica. Se você mostrar para um livreiro um livro composto em computador e outro composto manualmente, elas não saberão diferenciá-los.

A produção da editora não interessa a nenhuma distribuidor convencional. Tentei buscar soluções, mas são soluções que só trazem novos problemas. Comecei fazendo uma tiragem em torno de 650 exemplares, às vezes chegava a oitocentos exemplares. Depois tinha o problema de escoamento da produção, então baixei a tiragem para trezentos exemplares. Tive então problemas porque o preço unitário aumentava muito. No início, eu não costurava meus livros, mas passei a costurá-los porque passei a vendê-los em livraria para tentar um público maior. Quando se vende em livraria, ele atinge um público que não tem esse conhecimento e sensibilidade.

Também tentei vender meus livros pelo reembolso postal, pois quando cheguei à ilha tive várias surpresas com a província. Uma delas é que o balcão do correio, o reembolso postal, funcionava como a maior livraria da cidade. Passei a trabalhar com o reembolso postal e era uma maravilha. Você mandava os livros e poucos dias depois o correio te mandava o aviso. Hoje, após mudanças internas no correio, ele passou a ser a empresa mais sórdida do país.

Já faz um ano e meio que parei de vender para as livrarias. Agora, editando apenas para bibliófilos, um título por semestre, eu acho que tenho uma possibilidade de sobrevivência. Pretendo fazer livros por assinatura. Quer dizer, você escolhe o título, planeja o livro e envia ao assinante um cartão contendo os compromissos como o título da obra, o formato, o papel, a impressão e preço; o assinante paga a metade antes, e quando receber paga a outra metade. Depois de tantos anos acho que vou começar a fazer isso, porque assim mel ivro do problema da distribuição.

Para uma editora pequena, trinta anos representam uma vida inteira. Infelizmente pouca gente sabe a diferença entre uma editora industrial e uma pequena. O número de publicações da editora está próximo de oitenta títulos. Neste total estão incluídas edições calendários, gravuras, ensaios, cartas e poemas. Editei basicamente poesia, e uma poesia sofisticada. Em todos esses anos os autores e os tradutores receberam os direitos autorais em livros.

Eu vejo o projeto da editora como um projeto pessoal, uma aventura pessoal. Nessa aventura, se em algum momento houve erro, não houve nenhuma má intenção. Tentei dar aquelas coisas que você acha que podem trazer algum prazer, algum ensinamento às pessoas que têm acesso a esse produto, e levar um pouco de conhecimento dessa aventura humana. Creio que o trabalho de editor é chamar atenção nessa vida tão atribulada.


Um exemplo disso é editar um poeta que existiu no século XII e que pode ser interessante; então vamos tornar acessível. Graças a Deus existe um tradutor para esse trabalho. Há essa tribo tão exótica que mexe com esse universo. O homem comum pode achar dispensável isso, mas ele acha por ignorância. Por um processo que não sei bem qual é, cada um de nós é uma pedrinha nesse mosaico. Então vamos fazer da melhor maneira a parte que nos cabe.






sexta-feira, 29 de maio de 2015

4 POEMAS DE DANA GIOIA

Dana Gioia (1950) é um poeta californiano, de ascendência italiana e mexicana. Seu currículo é muito extenso e bem peculiar. Em 1992 abandonou uma carreira bem sucedida como homem de negócios (tendo chegado a vice-presidente na General Foods) para trabalhar exclusivamente como escritor e tradutor de poesia latina, italiana, alemã e romena. Durante seu mestrado em literatura comparada na universidade de Harvard, foi aluno de Elizabeth Bishop e Robert Fitzgerald. Tem cinco livros de poemas publicados até aqui, dentre os quais o vencedor do American Book Award de 2002, Interrogations at Noon. Gioia ocupou a presidência do National Endowment for the Arts, entre 2003 e 2009.

O poema “Angel with the broken wing” foi traduzido em parceria com o poeta Eucanaã Ferraz. As traduções foram originalmente publicadas na edição impressa do Jornal Rascunho, edição de Maio de 2015.

Agradecimentos ao Dana Gioia, por ter liberado os direitos autorais, ao Leonardo Marona pela gentil revisão, ao Eucanaã Ferraz pela inesperada parceria na tradução desse belo poema, e, finalmente, aos queridos Luiz Eduardo Freitas, Maíra Mathias e Rodrigo Carvalho de Abreu Lima, por me ajudarem ao longo do contato estabelecido com o poeta estadunidense.

Marcelo Reis de Mello.


O LUNÁTICO, O AMANTE E O POETA
DANA GIOIA

Tradução de Marcelo Reis de Mello

Nossas fábulas são falsas ou verdadeiras,
Mas esse tampouco é o ponto. Tecemos
A trama da nossa existência sem palavras
E a estória certa nos diz quem nós somos.
São possivelmente as palavras que nos convocam.
A fábula é amiúde mais sábia do que o fabulista.
Mais nua e crua é a verdade que vestimos.

Então, deixe-me trazer esta estória para nossa cama.
O mundo, eu digo, depende de um feitiço
Dito a cada noite pelos amantes ínscios
De sua própria magia. Na inocência
Ou na agonia as mesmas palavras devem ser ditas,
Ou a lua irascível escurecerá no céu.
A noite ainda cresce. Os ventos da aurora expiram.

E se eu estiver errado deve ser por pouco.
Sabemos que nossa própria existência veio do toque,
A luxúria convocando a nova alma à vida.
E a tímida língua do amor desperta em tal fogo –
Carne contra carne e secreto murmúrio –
Como se o único desígnio do desejo
Fosse revelar suas infinitas dobras.

E assim, meu amor, somos dois lunáticos,
Secretários da lua sem palavras,
Deitados acesos, juntos ou separados,
Transcrevendo cada toque ou dolorida ausência
Em nosso interminável, íntimo parolear,
Corpo a corpo, nus para a noite,
Vestidos apenas com a nossa voz.


(Poema do livro Pity the Beautiful, de 2012)


The Lunatic, the Lover, and the Poet
Dana gioia


The tales we tell are either false or true,
But neither purpose is the point. We weave
The fabric of our own existence out of words,
And the right story tells us who we are.
Perhaps it is the words that summon us.
The tale is often wiser than the teller.
There is no naked truth but what we wear.

So let me bring this story to our bed.
The world, I say, depends upon a spell
Spoken each night by lovers unaware
Of their own sorcery. In innocence
Or agony the same words must be said,
Or the raging moon will darken in the sky.
The night grow still. The winds of dawn expire.

And if I’m wrong, it cannot be by much.
We know our own existence came from touch,
The new soul summoned into life by lust.
And love’s shy tongue awakens in such fire—
Flesh against flesh and midnight whispering—
As if the only purpose of desire
Were to express its infinite unfolding.

And so, my love, we are two lunatics,
Secretaries to the wordless moon,
Lying awake, together or apart,
Transcribing every touch or aching absence
Into our endless, intimate palaver,
Body to body, naked to the night,
Appareled only in our utterance.


Plantando uma sequoia
DANA GIOIA

Tradução de Marcelo Reis de Mello


Eu e meus irmãos trabalhamos a tarde inteira no pomar,
Abrindo esse buraco, pondo você nele, embalando com cuidado o solo.
A chuva enegrece o horizonte, mas ventos frios seguram-na sobre o Pacífico,
E o céu sobre nós se torna fosco e cinza
De um ano que encontra seu fim.

Na Sicília um pai planta uma árvore pelo nascimento de seu primeiro filho –
Uma oliva ou figueira – sinal de que a terra suporta uma vida a mais.
Eu teria feito o mesmo, aumentando com orgulho o estoque do pomar de meu pai,
Um rebento verde crescendo entre os ramos torcidos das maçãs,
A promessa de um novo fruto em outros outonos.

Mas ajoelhamo-nos hoje no frio para plantar você, nossa nativa gigante,
Desafiando a exequível tradição de nossos pais,
Enrolando em suas raízes uma mecha de cabelo, um pedaço do umbigo de um bebê,
Todos os vestígios do filho mais velho sobre a terra,
Poucos átomos dispersos que o trouxeram de volta à origem.

Nós lhe daremos o que pudermos – nosso trabalho e nosso chão,
A água tirada da terra quando o céu falhar,
Noites perfumadas pela névoa marinha, dias suavizados pelo curso das abelhas.
Plantamos-te na quina do horto, sob a luz do oeste,
Um tiro fino contra o crepúsculo.

E quando nossa família não existir mais, mortos até seus irmãos não nascidos,
Cada sobrinha e sobrinho espalhados, a casa demolida,
As cinzas da beleza da sua mãe no ar,
Eu quero que você permaneça entre estranhos, tudo efêmero e jovem para ti,
Guardando silenciosamente o segredo do seu nascimento.


(Poema do livro Gods of Winter, de 1991)

Planting a Sequoia
DANA GIOIA


All afternoon my brothers and I have worked in the orchard,
Digging this hole, laying you into it, carefully packing the soil.
Rain blackened the horizon, but cold winds kept it over the Pacific,
And the sky above us stayed the dull gray
Of an old year coming to an end.

In Sicily a father plants a tree to celebrate his first son’s birth–
An olive or a fig tree–a sign that the earth has one more life to bear.
I would have done the same, proudly laying new stock into my father’s orchard,
A green sapling rising among the twisted apple boughs,
A promise of new fruit in other autumns.

But today we kneel in the cold planting you, our native giant,
Defying the practical custom of our fathers,
Wrapping in your roots a lock of hair, a piece of an infant’s birth cord,
All that remains above earth of a first-born son,
A few stray atoms brought back to the elements.

We will give you what we can–our labor and our soil,
Water drawn from the earth when the skies fail,
Nights scented with the ocean fog, days softened by the circuit of bees.
We plant you in the corner of the grove, bathed in western light,
A slender shoot against the sunset.

And when our family is no more, all of his unborn brothers dead,
Every niece and nephew scattered, the house torn down,
His mother’s beauty ashes in the air,
I want you to stand among strangers, all young and ephemeral to you,
Silently keeping the secret of your birth


O ANJO DA ASA QUEBRADA
DANA GIOIA

 Tradução de Marcelo Reis de Mello e Eucanaã Ferraz

Eu sou o anjo da Asa Quebrada,
Deste aposento a única escultura.
Acham-me tão atroz que me trancaram
com ar condicionado nesta tumba.

Docentes louvam meu porte elegante
Sobre a galeria em buliçoso alarde.
Talvez eu seja disso uma obra-prima:
Perfeito emblema da futilidade.

Mendoza me esculpiu para uma igreja.
(Seu nome, já esquecido, só eu guardo.)
Vizinho de um altar dourado, onde
A Deus rogavam os desamparados.

Ouvi mulheres rezando a meus pés –
Aos réus, aos mortos, aos que não têm nome.
Suas velas alongavam minha sacra
Sombra. Da fé tornei-me então a fome.

A asa esquerda quebrei na Revolução
(Até um santo degusta a ironia)
Quando vandalizaram a capela.
Foi um soco só – sem muita alegria.

Pois até os ímpios mudam numa igreja,
Seria esperança, medo? Alguém sabe?
Um tremor extinto por suas leis,
Memória ancestral que só ali se abre.

Há tantas coisas que eu diria a Deus!
Não o alcança o uivo dos condenados.
Fico esta coisa morta aqui num canto,
contra um céu de afresco, santo aleijado.


(Poema do livro Pity the Beautiful, de 2012)


THE ANGEL WITH THE BROKEN WING
DANA GIOIA


I am the Angel with the Broken Wing,
The one large statue in this quiet room.
The staff finds me too fierce, and so they shut
Faith’s ardor in this air-conditioned tomb.

The docents praise my elegant design
Above the chatter of the gallery.
Perhaps I am a masterpiece of sorts—
The perfect emblem of futility.

Mendoza carved me for a country church.
(His name’s forgotten now except by me.)
I stood beside a gilded altar where
The hopeless offered God their misery.

I heard their women whispering at my feet—
Prayers for the lost, the dying, and the dead.
Their candles stretched my shadows up the wall,
And I became the hunger that they fed.

I broke my left wing in the Revolution
(Even a saint can savor irony)
When troops were sent to vandalize the chapel.
They hit me once—almost apologetically.

For even the godless feel something in a church,
A twinge of hope, fear? Who knows what it is?
A trembling unaccounted by their laws,
An ancient memory they can’t dismiss.

There are so many things I must tell God!
The howling of the damned can’t reach so high.
But I stand like a dead thing nailed to a perch,
A crippled saint against a painted sky.


DINHEIRO
DANA GIOIA

Tradução de Marcelo Reis de Mello


O dinheiro é um tipo de poesia. – Wallace Stevens


Dinheiro, verdinha,
grana, gaita, ganga, cobre
ou só dindim.

Gasta tudo, paga logo,
vai: esbanja. Veja-o
abrir buracos nos bolsos.

Até ficar com seu cheiro! Juntar até
dizer chega! Dólares, dobrões,
pepitas e títulos do tesouro.

Engraxa as mãos, enche o bucho,
põe o leite das crianças,
segura as pontas.

Dinheiro chama dinheiro.
Multiplica os juros e os agiotas.
Sempre de mão em mão.

Dinheiro. Você não sabe onde ele andou,
mas leva-o, obediente, até a boca. E diz:
Ele é que manda.


(Poema do livro Gods of Winter, de 1991)



MONEY
DANA GIOIA

Money is a kind of poetry. – Wallace Stevens


Money, the long green,
cash, stash, rhino, jack
or just plain dough.

Chock it up, fork it over,
shell it out. Watch it
burn holes through pockets.

To be made of it! To have it
to burn! Greenbacks, double eagles,
megabucks and Ginnie Maes.

It greases the palm, feathers a nest,
holds heads above water,
makes both ends meet.

Money breeds money.
Gathering interest, compounding daily.
Always in circulation.

Money. You don't know where it's been,
but you put it where your mouth is.
And it talks.